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Um gigante na serra

By 28 de setembro de 2015 No Comments

 

Será ligado no mês que vem num laboratório de Petrópolis o supercomputador mais rápido do país, que estará à disposição de qualquer cientista

 

Dom Pedro II sempre foi conhecido por ter sido grande incentivador da tecnologia. Sabe-se, por exemplo, que o imperador era fotógrafo, num tempo em que isso não era tão comum, e que foi amigo do escocês Alexander Graham Bell, o criador do telefone. Pois agora Petrópolis, cidade que o homenageia até no nome, se tornará em breve palco de um acontecimento extraordinário na ciência nacional: em outubro, entrará em operação, ali, o Santos Dumont, considerado o maior supercomputador da América Latina.

 

Cerca de 1 milhão de vezes mais rápido que um notebook comum, ele é uma máquina que, simbolicamente, voa – à semelhança da personalidade que lhe empresta o nome, tão fã daquela cidade serrana que até morou lá. A novidade tecnológica é fruto de um acordo assinado entre Brasil e França, e está abrigada no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), um instituto de pesquisa cercado de plantas, localizado atrás do charmoso Palácio Quitandinha. “Trata-se da realização de um sonho da comunidade científica brasileira”, afirma Pedro Dias, diretor da entidade.

 

Basicamente, os supercomputadores são versões turbinadas dos aparelhos que temos em casa. Enquanto um laptop topo de linha tem seis processadores, o novo cérebro eletrônico fluminense tem 1 milhão de componentes do tipo. Por conseguir analisar enormes quantidades de informação num curto período, será útil para diversas áreas. Uma delas é a meteorologia, que usa máquinas assim para comparar condições climáticas de um determinado momento com outras do passado e, a partir disso, fazer previsões do tempo. Na medicina, por sua vez, os pesquisadores perceberam que o ângulo natural da artéria carótida favorecia o seu entupimento e usaram supercomputadores como esse para descobrir a posição perfeita e criar próteses que minimizassem o problema.

 

Como se pode observar, o novo equipamento ajudará, e muito, em variados setores da ciência. Mas isso tudo tem um preço: o Santos Dumont custou 60 milhões de reais. Fabricado na França, foi testado lá por duas semanas antes de vir de navio para o Brasil, numa viagem que durou um mês. Partindo do Porto do Rio, quatro carretas foram necessárias para que o gigante de 15 toneladas subisse a serra. Para se ter uma ideia, esse é o peso de dois exemplares de elefante-africano, animal tido como o maior mamífero terrestre. Lá em cima, um guindaste facilitou o descarregamento de todas as panes da máquina antes da remontagem, que levou uma semana para ser concluída.

 

 

 

Neste exato momento, o supercomputador petropolitano repousa em deis contêineres que foram unificados e lhe servem de casa. O ambiente cinza e branco lembra o cenário de filmes de ficção científica. No teto, estão os fios que vão alimentar a fera digital. Quando estiver funcionando, o Santos Dumont devorará energia suficiente para abastecer um bairro com 3 000 habitantes. Por isso, três geradores estão à sua disposição. A estimativa dos cientistas é que a novidade sozinha acarrete um gasto de 500.000 reais de luz por mês, valor quatro vezes maior que o da atual conta de energia paga pelo laboratório. Entretanto, o investimento é considerado válido, já que a máquina consegue processar trinta vezes mais dados do que a capacidade de todos os computadores do LNCC hoje. São números que animam os cientistas, que não veem a hora de ter tudo ligado. “Quanto mais poder computacional, mais ferramentas nós temos para lidar com os problemas”, explica Fábio Porto, pesquisador do instituto. O alvoroço é tanto que já despertou até a curiosidade de hackers – nos últimos meses aumentou o número de tentativas de invasão dos sistemas do órgão.

 

O Santos Dumont poderá ser usado por qualquer cientista do país. Para isso, será preciso apenas que o pedido seja feito ao LNCC, que vai avaliar as solicitações e liberar a máquina de acordo com a urgência e a necessidade de cada projeto. Esse é um formato inédito no universo dos supercomputadores brasileiros, que geralmente têm uso restrito a finalidades específicas. Destronado pelo gigante de Petrópolis, o Yemoja, que pertence ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), é voltado para estudos na área de geofísica. O mesmo acontece com o Tupã, aparelho usado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apenas para análises climáticas, e com o Grifo04, da Petrobras, focado nas pesquisas da própria empresa. Embora seja um avanço respeitável em termos de computação científica, o novo dispositivo ainda está longe dos melhores do mundo. Primeiro da lista, o chinês Tianhe-2 tem três vezes mais processadores que a máquina brasileira. Mesmo assim, a novidade pode servir de passaporte de entrada para o país no clube das nações que fazem ciência de ponta.

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